sábado, 20 de outubro de 2007

Genealogia 4: Evolução dos sobrenomes portugueses (II)

Na coluna anterior referia-me aos nomes portugueses, que existiam na Idade Média na forma "nome+patronímico", ou seja, João filho de Simão = João Simões. Se este João tivesse um filho chamado, digamos, Diogo, este se chamaria Diogo Eanes, e se este por sua vez tivesse um filho Simão, seria Simão Dias.

Após o século X, com a consolidação dos reinos ibéricos, e conseqüentemente a divisão territorial em propriedades de "senhores feudais", estes passaram a ser considerados como "importantes", daí vão surgindo nomes familiares, verdadeiros sobrenomes como nós dissemos no Brasil (ou apelidos, como dizem os portugueses e espanhóis). Assim, se fulano era senhora da Quinta do Pinheiro, adotava o sobrenome Pinheiro, se outro era dono das terras de Sousa, adotava o sobrenome "de Sousa", e assim por diante. Desta forma nascem boa parte dos sobrenomes mais usados atualmente, como Sousa, Silva, Pereira, Moreira, Magalhães, Rocha, Medeiros, Moreira, Lisboa, Leão, Machado, etc, etc.
Mas isto não significa dizer que todas pessoas de sobrenome Machado sejam todas descendentes de um antepassado em comum Machado, senhor feudal. Estas famílias eram relativamente pequenas, e poucas, e a elas foram atribuídos brasões.

O que acontece é que progressivamente o "formato" de nome dos "nobres" foi influenciando os nomes dos "pobres". Se numa época inicial poderíamos identificar plenamente um rico por nome do tipo "João Pires da Silva" (i.e., João filho de Pedro da Família Silva), e um homem do povo por um nome do tipo "João Pires" (João filho de Pedro), uma séria de modificações vai alterar os usos.

Com o tempo, alcunhas (o que no Brasil chamamos de apelido) acabam virando sobrenomes, um João Pires "O Magro" pode acabar passando Magro para os filhos, e assim surge um novo sobrenome. Como as alcunhas existiam independentemente em pessoas diferentes, não significa que todos de sobrenome Magro teriam que descender de uma só pessoa, mas teriam múltiplas origens. Outras possibilidade era adotar o nome do lugar de onde veio, algo do tipo "João Pires de Lisboa", ou "João Pires de Coimbra". Assim também surgem novos sobrenomes.
Outra forma mais simples era apenas transformar o patronímico em sobrenome, "congelando-o". Um "João Pires" tendo um filho Estêvão, em vez de simplesmente batizá-lo "Estêvão Eanes", como seria o esperado em se tratando de patronímicos, chamava-o de "Estêvão Pires", e assim o Pires acaba por cristalizar-se e fixar-se como sobrenome. É justamente por este motivo que não existe uma única família Lopes, Simões, Dias, Fernandes, Gonçalves, Esteves, etc...
Importante salientar também que com o aumento da variedade de prenomes a disposição vai gerar após o século XII uma nova safra de patronímicos, sem sufixo algum. João filho de Francisco será apenas João Francisco, e não "João Francisques", uma Maria filha de Clemente será Maria Clemente. Para alguns prenomes o patronímico com sufixo vai conviver com o patronímico "puro". Assim por volta do século XIII, encontramos tanto a forma arcaica "Martim Eanes", como "Martim João", "José Antunes", como "José Antônio", "Felipe Marques", como "Felipe Marcos". Também ocorrerá no português escrito uma curiosa forma de fusão: Janeanes, em vez João Eanes, Pedrálvares em vez de Pedro Álvares, assim por diante. Tal grafia estranha esteve em uso até pelo menos o século XVI.
Também outro costume interessante que iria perdurar até meados do século XIX era a mudança de gênero no sobrenome: João Machado, mas Maria Machada; Felipe Coelho, mas Teresa Coelha; Luís Brandão, mas Luísa Brandoa.
Por volta do século XV, o sistema de patronímicos começa a se desestabilizar, e os patronímicos vão gradualmente sendo "congelados" na forma de patronímicos.
(Continua)

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